2º Trabalho de Hércules: O Controle e superação dos desejos | Biblioteca Virtual da Antroposofia

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Memorial 50 anos Clínica Tobias – São Paulo

Memorial de 50 anos da Clínica Tobias

O movimento estudantil na Medicina Antroposófica

É com grande honra que recebo este convite da Drª Gudrun para escrever como o movimento estudantil descobriu a Medicina Antroposófica (MA) no Brasil e abordar a minha trajetória acadêmica para chegar na Clínica Tobias. Para isso terei que contar um pouco da minha história.

Meu primeiro lampejo pensamental – ainda bem criança – era ajudar a Ciência (só não sabia como). Por volta dos 14 anos ganhei de meu pai (talvez antevendo minha tendência) um livro sobre a medicina sacerdotal do Antigo Egito: finalmente sabia o que eu queria fazer na vida. Entrei para a Faculdade de Medicina (UFJF – Universidade Federal de Juiz de Fora – em agosto de 1973) com esse ideal; mas me frustrei no primeiro ano: não existia mais a medicina sagrada. Essa insatisfação me levou a procurar outras fontes de conhecimento. Para isso recorri à FEEU (Fundação Editorial Educacional Universalista), de Porto Alegre (RS) e expus minha busca. De lá veio a resposta para procurar certa Clínica em SP onde se praticava uma “medicina diferente”. Escrevi cartas e de lá recebi folhetos informativos sobre Saúde e Doença, Nervosismo e Egoidade etc. Senti que tinha encontrado o que procurava, pois seus argumentos atendiam aos meus anseios internos. Mesmo assim precisava colocar no papel a minha busca – escrevi o trabalho científico Interrelações Psicossomáticas e o apresentei no VII ECEM (Encontro Científico de Estudantes de Medicina), de 13 a 20 jul 1975, em Petrópolis (RJ). No ambiente solene de Quitandinha, numa noite fria e chuvosa, com sala cheia de futuros médicos, quase fui “apedrejado” (no sentido figurado), pois no meio acadêmico era sacrilégio falar em alma e espírito. Transpirei gelado até molhar a camisa, mas deixei meu recado: existe algo a mais no ser humano. Senti-me um Patch Adams.

No final de 1975 recebi o convite da Drª Gudrun, para participar do curso de um médico alemão que viria pela primeira vez ao Brasil. Era Dr. Otto Wolff que deu um curso sobre MA com enfoque na Farmacologia Antroposófica, na biblioteca da Clínica Tobias para 6 médicos e um acadêmico de medicina (eu). Não entendi nada, mas me fascinou o “raciocínio dedutivo” (era a metodologia científica goethiana que ele estava usando) para compreender como as substâncias químicas atuam no organismo. Só restava cair de cabeça no estudo da MA – e assim fiz.

Voltando de SP, escrevi um artigo no jornal Abertura, do DA (Diretório Acadêmico) de Medicina, que saiu publicado no próximo número (vide abaixo). Como Secretário de Imprensa do DA Medicina, entre 74-76, o Jornal Abertura foi criação minha, em 1974, com 10 páginas: chegou aos 4 anos de existência, com 18 exemplares.

“Prezados colegas. Tive a oportunidade de conhecer esta Clínica num evento de MA no ano passado. Esta Clínica trás sempre médicos estrangeiros para proferirem palestras a médicos e acadêmicos daqui. A inscrição de estudantes é irrisória. Fiquei uma semana saboreando estes conhecimentos profundos da medicina que chegavam ao fundo da minh’alma. O que sempre esperei da medicina, ali estava; preenchia aquela lacuna que a daqui não consegue dar seu recado” (Jornal Abertura, ano 2, nº 7, março 1976, p.5).

Mas não queria uma nova medicina somente para mim – precisava compartilhar com todos os colegas. Fui de sala em sala, do 1º ao último ano, pedindo licença a cada professor, para informar essa grande novidade (muitos professores e alunos mais graduados torciam o nariz – mas não me importava). De um grande número de alunos interessados criamos o NUPPAM (Núcleo Universitário de Pesquisas Psicossomáticas Aplicadas à Medicina) em 1975, com promoções de palestras, cursos e intercâmbios com outros colegas de outras Faculdades. Como Presidente do DA Medicina, gestão 76-77, criei a Semana da Medicina: SEMED Cultural (início em 76 e perdurando por várias diretorias) com palestras e cursos envolvendo todos os períodos da Faculdade (era a maneira de colocar a MA para todos), a SEMED Esportiva (início em 76 e prolongando durante vários anos, com outras diretorias do DA Medicina), com torneios esportivos de várias modalidades envolvendo todos os períodos da Faculdade e a Feira Científica da Medicina, em 1977, com exposições dos acadêmicos, nas variadas especialidades médicas (Ex: aluno de ginecologia mostrava no boneco como nascia um neném, aluno de fisiologia mostrava no microscópio o sangue circulando no omento etc), visando mostrar à comunidade juizforana como era o estudo acadêmico: centenas e centenas de alunos dos cursos básicos e fundamentais das escolas públicas chegavam em caravanas de ônibus, para visitar a Feira, que durou uma semana, de 8 a 12 Ago 77, no campus da UFJF. Vale a pena ressalvar que a minha gestão 76-77 foi um boom na Faculdade, uma vez que depois de 1968, o movimento estudantil estava estagnado – porque aqui em Juiz de Fora começou a Revolução de 64 e todos tinham medo de qualquer manifestação estudantil. É claro que participei de greves e saía sempre nos jornais da cidade para falar mal do Reitor. Também a polícia (DEOPS) esteve no meu calcanhar…. mas isso é outra história.

Expus aos Drs Gudrun e Kaliks a necessidade de um curso informativo aos acadêmicos interessados. Foi montado um grande esquema à longo prazo para que Dr Wolff pudesse vir periodicamente, como se vê abaixo. De minha parte consegui arregimentar 40 acadêmicos de medicina. Mas como levar essa turma para SP? Recorri ao Reitor da UFJF para conseguir um ônibus – negado. A única saída foi alugar um vagão de trem, que varou a noite inteira, com troca de locomotiva em Barra do Piraí (RJ) – 12 horas de pura bagunça; com música e bebida.

· 1º curso de MA = 12 a 17 dez 1976 – Dr. Otto Wolff

· 2º curso de MA = 11 a 19 mar 1977 – Dr. Otto Wolff

· 3º curso de MA = 22 jan a 2 fev 1978 – Dr. Otto Wolff

· 4º curso de MA = 10 a 28 jan 1979 – Dr. Otto Wolff

· 5º curso de MA = 8 a 18 jul 1979 – Dr. Norbert Glas

· 6º curso de MA = 9 a 26 jan 1980 – Dr. Otto Wolff

· 7º curso de MA = 4 a 16 jan 1981 – Dr. Otto Wolff

Essa turma toda ficava hospedada na Vivenda da Clínica Tobias – de dia aulas e à noite colchonetes no chão. Mas como o silêncio à noite não era respeitado, muitos pacientes comeram a reclamar. Na manhã seguinte: reprimendas. Foi preciso que Drª Gudrun criasse o Centro Paulus, para albergar futuros cursos.

Outra preocupação minha: como fornecer prática ambulatorial aos alunos que faziam os cursos teóricos? Criei o Ambulatório Serápis (CGC 19582055/0001-85), em 1976, alugando uma casa modesta no bairro Granbery, à Rua Princesa Isabel, 160/2, com a ajuda financeira da ABT (Associação Beneficente Tobias), para atendimento à população carente. Disso resultou um trabalho científico: “Relatório do Ambulatório Serápis entre 76-77” e apresentado no IX Encontro Científico de Estudantes de Medicina (ECEM), Florianópolis – SC, em 1977, no sentido de mostrar a MA aos demais acadêmicos de medicina lá de fora. O Ambulatório Serápis sobreviveu até 1983, até todos os colegas terminarem suas graduações.

Antes de me graduar em 1979, ainda dei a palestra “O que é MA?” no IV ENEIH (Encontro Nacional de Estudantes Interessados em Homeopatia), em Natal – RN, em 4.11.79, no sentido de levar a MA para dentro do movimento homeopático estudantil. Vale a pena lembrar que fui o criador do ENEIH, em abril 1977, sob a supervisão do Dr. Alfredo Vervloet, professor do Departamento de Homeopatia do Instituto Hahnemanianno (FEFIERJ), para fazer frente à corrente alopática da FEFIERJ, que queria suprimir a cadeira de Homeopatia do seu quadro. Como Presidente e representante estudantil do I ENEIH, tive uma audiência com o Ministro da Educação, Sr. Ney Braga, no MEC em Brasília, em 1977, no sentido de reivindicar a continuidade do curso de Homeopatia na FEFIERJ. O ENEIH continua na sua 12ª edição.

Quero aproveitar para agradecer a grande participação maciça dos colegas de Juiz de Fora, de um grupo ímpar que nasceu aqui e incorporou a MA nas suas vidas, muitos dos quais continuam suas atividades profissionais em várias cidades do país. Agradeço à Dr Gudrun, Dr Kaliks, Dra Sônia, Dr Kenzler e outros, que estiveram conosco todo esse tempo. Agradeço à Clínica Tobias, que nos acolheu nos primeiros momentos e que nestes 50 anos fazemos parte da sua história.

Antonio José Marques – clínico geral antroposófico

http://www.vivendasantanna.com.br

antoniomarques@vivendasantanna.com.br

CFM / Medicina Antroposófica

CFM aborda Medicina Antroposófica usando argumentos que serviram para proibir auto-hemoterapia

– Assim, Pareceres do Conselho de Medicina criam confusão sobre método científico

“Fazer do método científico convencional o único método possível de conhecimento significa renunciar a um conhecimento integral da natureza humana”. Esta frase faz tremer as letras do Parecer Nº 12/07 do Conselho Federal de Medicina, que tratou da Auto-hemoterapia, principalmente se for acrescida desta outra: “Esse conhecimento precisa ser ampliado e, na sua ampliação, transformado por um outro conhecimento que se baseia numa capacidade de percepção abrangente, espiritual, uma percepção de totalidades, a ser desenvolvida pela alma humana”, bem como de outro trecho que diz: “Esta capacidade de percepção existe em todos nós, potencialmente, da mesma forma que as capacidades anímicas da pessoa adulta existem potencialmente na criança”.

Pois bem, caros leitores, estas afirmações acima foram extraídas, nada mais nada menos, que do Parecer Nº 21/93 do mesmo Conselho Federal de Medicina, que reconheceu a Medicina Antroposófica como prática médica, num processo parecido com aquele que tratou da Auto-hemoterapia. Para justificar o reconhecimento, o Dr. Nilo Fernando R. Vieira argumentou ainda que “Não se entenderá nunca a natureza própria do organismo humano enquanto não se perceber que ele, na medida em que vive, sente e pensa, se subtrai permanentemente aos efeitos e atividades que encontramos na natureza”, acrescentando que “Isto significa que nele acontecem processos que não podem ser compreendidos pelos métodos científicos usados para o conhecimento do mundo exterior”.

Apresentando a Medicina Antroposófica como “uma ampliação da arte de curar”, o Parecer afirma que aquela atividade tem se expandido desde 1920, estabelecendo-se na Alemanha, na Europa como um todo e no Brasil. “Este impulso tem crescido a ponto de ser possível criar, na Alemanha, uma faculdade de medicina na qual, desde o início o estudante adquire o conhecimento do homem do ponto de vista antroposófico, ao lado do ensino científico convencional”, diz o documento.

Segundo o Parecer, “A medicina antroposófica baseia-se em um conhecimento do ser humano, da natureza e do cosmo, que foi pesquisado e formulado por Rudolf Steiner no começo deste século (Século XX) e ao qual deu o nome de Antroposofia”. A medicina antroposófica mostra que o ser humano não é só a sua organização física, ele é também uma organização não física que se expressa nos conteúdos e atividades da alma e do espírito. O desequilíbrio nesta relação recíproca leva ao estado de doença. Defende que “Um verdadeiro conhecimento da patologia só pode ser atingido conhecendo exatamente e, deste ponto de vista, tanto os processos biológicos como os psicoespirituais e as suas relações recíprocas” e anuncia que “Neste sentido, a medicina antroposófica ‘amplia’ o conhecimento da medicina convencional com outros conhecimentos obtidos por métodos de pesquisa diferentes”.

Mais adiante o Parecer trata dos medicamentos utilizados pela medicina antroposófica, detalhando como devem ser ministrados, além de considerar que “Outros recursos podem ser utilizados para o tratamento de diversas doenças, entre as quais mencionaremos a massagem rítmica, as terapias artísticas e o trabalho sobre a biografia do paciente”. Detalha também que “Os medicamentos antroposóficos são produzidos por processos farmacêuticos e orientados pelos conceitos de Antroposofia, respeitando-se a natureza essencial e qualitativa das substâncias dos reinos vegetal, mineral e animal”.

Avaliando a prática antroposófica, o parecerista opina que “A minha interpretação da conceituação de ‘ampliação da arte curar’ pretendida pela medicina antroposófica está no fato de que esta prática procura resgatar um conhecimento, um entendimento do paciente ou do indivíduo em seu contexto bio-psico-social. Algo que nós médicos temos perdido no decorrer dos anos e que, de forma equivocada estamos nos especializando em tratar doenças, deixando o indivíduo de lado”.

Mesmo entendendo que não dispunha “de elementos que caracterizem a Medicina Antroposófica como uma nova forma de prática médica”, concluiu que “Observando os conceitos contidos nos artigos científicos a nós enviados, entendo que a Medicina antroposófica procura uma certa semelhança com os termos usados na medicina alopatica, embora se diferencie extremamente nos aspectos relacionados à patogenese, fisiopatologia e terapêutica medicamentosa”. Por fim, escreveu: “Acerca da terapia medicamentosa, entendo que o CFM deve recomendar aos médicos que usem os chamados medicamentos antroposóficos com extrema cautela, evitando abandonar terapêuticas já sedimentadas, por alternativas desprovidas de experimentações baseados nos métodos científicos”.

Além do Parecer do CFM, encontramos no site da ANVISA artigo do médico antroposófico Antônio José Marques com o título “O que existe por detrás do Lúpus (LES)?”. Ali ela trata de um procedimento medicamentoso, alegando que “Medicamentos complementares fazem parte das idiossincrasias de cada paciente”, que “O estímulo imunológico fica por conta do Viscum álbum” e que “Enquanto que na AR utilizam-se dosagens ponderais (% ou mg), até auto-hemoterapia com o Viscum, para uma resposta vigorosamente imunogênica, no Lúpus as dosagens do Viscum devem ter potências mais elevadas (D4 ou D5), para estímulos sutis e prolongados (durante vários anos)”. O Artigo foi publicado inicialmente na Revista “Arte Médica Ampliada”, da Associação Brasileira de Medicina Antroposófica, ano XXIV, nos 3-4, Primavera-Verão/2004.

Diante de todas estas situações, cabe mais uma vez mostrar que o Conselho Federal de Medicina precisa tratar de forma mais objetiva questões tão importantes que envolvem a vida das pessoas que precisam de alternativas de tratamento e que se vêem cerceadas no seu direito humano de preservar a própria saúde, devido a este verdadeiro mar de contradições e desencontros em que se transformaram alguns dos seus Pareceres Técnicos. Uma forma digna de sanar essas falhas, seria a reabertura da discussão a respeito da auto-hemoterapia, com a revogação do Parecer Nº 12/07.